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Cheia dos rios na Amazônia — impacto em comunidades ribeirinhas

Casas ribeirinhas com rio em nível elevado

O nível do Solimões e do Amazonas subiu acima da média histórica para o mês de junho em pelo menos oito municípios do Amazonas e do Pará. Em comunidades ribeirinhas entre Tefé e Coari, a cheia já invadiu terreiros, obrigou famílias a elevar estruturas de madeira e alterou rotas de transporte escolar que dependem exclusivamente de barco.

Marina Azevedo percorreu três dias o médio Solimões a bordo de um barco de linha e de embarcações menores que servem comunidades sem acesso regular. O retrato que encontrou mistura adaptação cotidiana e cansaço acumulado: quem já viveu dezenas de cheias sabe o que fazer, mas cada ano traz um detalhe novo — um cais que cedeu, uma plantação de mandioca perdida, uma criança que precisa acordar mais cedo para chegar à escola.

O que os dados mostram

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a estação fluviométrica de Manaus registrou em 7 de junho cota próxima a 28 metros — valor que, em anos anteriores, costumava aparecer apenas no segundo quinzena do mês. Em Tabatinga, no alto Solimões, técnicos locais relatam subida constante desde a segunda semana de maio, com picos que superam a média dos últimos dez anos.

Defesa Civil do Amazonas mantém monitoramento em 42 municípios e distribuiu kits de higiene e lonas para famílias em áreas de várzea baixa. Até o momento, não há registro de desabrigados em larga escala, mas autoridades alertam para risco de isolamento em trechos onde a correnteza dificulta a navegação de embarcações pequenas.

Na beira do rio em Coari

Na comunidade de São Raimundo, a cerca de duas horas de barco de Coari, Dona Neuza, 58 anos, mostrou o terreiro coberto por lama fina. "Subimos a casa em 2020 e achamos que dava para mais uns anos", ela conta. "A água entrou pelo chão da cozinha na semana passada. Agora dormimos com a rede mais alta e a panela no fogão em cima de tijolo."

"Cheia não é surpresa. Surpresa é quando o remédio não chega porque o barco do posto de saúde não consegue atracar."

— Neuza da Silva, moradora de São Raimundo

A filha de Neuza, professora em escola estadual, disse que metade dos alunos faltou na primeira semana de junho por causa de chuva forte combinada com correnteza. A escola funciona em estrutura elevada, mas o caminho até ela — uma passarela de tábuas sobre a várzea — ficou instável e precisou de reparo emergencial feito pelos próprios pais.

Pesca e roça em tempo de cheia

Pescadores artesanais relatam mudança no comportamento dos cardumes. "O peixe se espalha", explica Joilson, que vende tambaqui e pirarucu no mercado de Coari. "Quem conhece o igarapé sabe onde procurar, mas gasta mais gasolina e volta com menos carga." Plantio de mandioca em áreas baixas foi perdido em pelo menos três comunidades visitadas pela reportagem.

Associações de agricultores familiares pedem à prefeitura mapa atualizado de áreas seguras para roça de safra de verão. O pedido ainda aguarda resposta formal, mas técnicos da secretaria de agricultura local confirmaram visitas de campo agendadas para a segunda quinzena de junho.

Transporte e abastecimento

Barcos de linha mantêm horários, mas com restrições. Capitães consultados pela reportagem disseram que reduziram carga em trechos de maior correnteza e que passageiros com crianças pequenas precisam usar coletes com mais rigor. Em um ponto de parada entre Tefé e Fonte Boa, fila de sacas de arroz e óleo esperava embarque há dois dias por falta de vaga em embarcação de carga.

Preço do botijão de gás subiu em duas comunidades isoladas onde o abastecimento depende de barco exclusivo. Moradores organizaram compra coletiva para dividir frete, prática que se repete em toda cheia moderada a forte, segundo liderança comunitária ouvida no local.

O que vem pela frente

Meteorologistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia indicam que chuvas acima da média podem continuar até o fim de junho na bacia do Solimões. Defesa Civil recomenda que famílias em áreas históricamente afetadas mantenham documentos e medicamentos em recipientes impermeáveis e identifiquem rotas alternativas de evacuação.

O Amazora acompanhará a cheia e publicará atualizações conforme novas medições forem divulgadas. Para relatar impactos na sua comunidade, escreva para [email protected].

Atualizado em 9 de junho de 2026 para incluir dados da estação de Manaus e relato de Coari.